O cenário empresarial contemporâneo testemunha um fenômeno peculiar: a crescente tendência de organizações em se autodeclararem "empresas de Inteligência Artificial". Este posicionamento, aparentemente inovador, revela uma profunda incompreensão sobre a natureza e o papel das tecnologias transformadoras no desenvolvimento empresarial.
Para contextualizar esta discussão, propomos um exercício analógico: imagine-se transpondo esta mesma lógica para tecnologias igualmente revolucionárias do passado recente. Como seria percebida uma Chevrolet que se posicionasse primariamente como uma "empresa de energia" ou uma Microsoft que se apresentasse como uma "empresa de internet"? Ainda que tanto a energia quanto a internet sejam fundamentais para suas operações, estas empresas mantêm clara sua proposta de valor central: mobilidade e software, respectivamente. A Microsoft, mesmo sendo uma das maiores beneficiárias da revolução da internet, nunca abandonou sua essência como empresa de software e soluções tecnológicas.
Esta analogia nos permite identificar um padrão preocupante no atual movimento de adoção da IA: a confusão entre meio e fim no posicionamento estratégico empresarial. Theodore Levitt, em seu seminal artigo "Marketing Myopia" (1960), já alertava sobre os riscos de empresas definirem-se pelos meios que utilizam, em vez de pelos benefícios que entregam aos clientes. Agora, mais de seis décadas depois, observamos uma nova manifestação desta miopia, potencializada pela ansiedade de parecer tecnologicamente relevante no mercado.